Em certo momento da história do pensamento europeu - digamos, meados do século dezoito - pareceu pertinente reabilitar uma velha tópica do ceticismo: a razão dos animais. Hume foi sem dúvida o primeiro a perceber que essa tópica merecia ser integrada à filosofia, não como recurso de argumentação, para questionar a razão humana, mas sistematicamente, para mostrar qual a natureza dessa faculdade. Para os filósofos racionalistas, herdeiros da tradição cristã, a razão é uma prerrogativa humana concedida pelo Criador. Os animais não pensam e não raciocinam, e é mesmo questionável que tenham sentimento ou sensibilidade. Hume se insurge contra essa ideia, e mostra que a razão é animal antes de ser humana, porque os humanos se reduzem a isto, simples animais sensíveis, determinados por suas paixões. Ora, se os homens pensam diferente de outros animais, é porque suas necessidades e prazeres, determinados pela fisiologia de sua espécie, são eles também específicos. Assim, a razão não governa as paixões, mas está a serviço delas. É um instinto, inscrito na "economia animal". A força desse argumento não demorou a ser percebida, e logo a razão animal se tornará uma questão obrigatória em toda discussão filosófica merecedora deste nome, aparecendo também na história natural. O que outrora era uma prerrogativa dos iniciados na argumentação cética tornou-se um motivo recorrente em escritos que tendiam ao materialismo e que eram associados à imoralidade e à libertinagem. Pois, reconhecer a universalidade da razão animal era o mesmo que solapar aquele solo metafísico e teológico sobre o qual repousara até então a razão humana. O livro de Dario Galvão que o leitor brasileiro tem em mãos, dedicado a esta questão, é daqueles que nos dão motivos para renovar ter otimismo com a filosofia. Erudito e profundo, nem por isso é difícil. Muito ao contrário, o texto nos engaja a ponto de por vezes nos encantar, transportando-nos para um mundo em que a discussão teórica ocorre em atmosfera de lib