«A Literatura Tradicional e Oral, em particular os contos, é um filão ainda, em grande parte, por explorar, sobretudo no que respeita a muitos aspectos da sua significação. Com efeito, nela se cruzam velhos mitos ou mitemas selecionados em função dos interesses da sociedade ou da cultura que os transpõe para os contos, (). A autora centrou o seu trabalho nas questões da metamorfose e da sua relação com a evolução maturativa porque, como é há muito sabido, a relação dos contos com a evolução maturativa das crianças e dos jovens é um dos pontos centrais da sua significação quer espelhando-a quer induzindo-a pelos conteúdos e exemplos que põe disposição das sociedades. Se os contos tradicionais são um repositório vivo das verdades em que a sociedade acredita ou cuja significação amplifica, por vezes ludicamente, e também uma indução da evolução psicológica das crianças e dos jovens (e que são os principais representados nestes contos, como a autora nota), esses contos vão ganhando a qualidade de "lugares" da identidade dessas sociedades e instrumentos rituais para a eficácia maturativa e identitária (do grupo e das pessoas)». [do Prefácio de Helder Godinho] ***************************************************************** «"O conto tradicional constitui¬ se como espaço privilegiado onde a imaginação e a realidade, o possível e o impossível ou improvável, muitas vezes designado como maravilhoso, estabelecem uma simbiose profunda, da qual nascem sentidos múltiplos e multiformes tais como os seres que o habitam. Por isso, pela natureza que o define e o torna singular entre as produções literárias, o conto tradicional prepara¬ nos antecipadamente para o encontro com a princesa e o príncipe, o sapateiro e a padeira, o lobo e o lobisomem, o sapo ou o cavalo ou ainda a gata, metamorfoseados seres cujas formas animais escondem uma natureza humana. De facto, entre os ogres e os monstros, as bruxas e as fadas ou outros seres fantásticos, metáforas da alteridade enquanto constant